01/07/2012

Viciados em internet

Por Walcyr Carrasco
 

Sou noturno. Gosto de escrever até de madrugada. Entro na internet em horários variados. Há gente que, seja qual for o horário em que apareço, permanece on-line. Em todas as redes sociais ao mesmo tempo! Recentemente conversei pelo Facebook com um rapaz de Belo Horizonte, de 25 anos. Não consegue arrumar emprego nem amigos. Confessou: “Só falo da minha intimidade quando abro a webcam”. Um diretor de uma multinacional, divorciado e sociável, lamentou-se:

– A maior parte dos meus antigos amigos hoje em dia só se relaciona pela internet.

O ciberviciado entra em síndrome de abstinência se não estiver plugado. É fácil reconhecê-lo: em locais públicos tecla nervosamente o celular à procura de uma conexão. Assume uma expressão de alívio quando consegue trocar duas ou três palavras com alguém que nem sequer conhece pessoalmente.

Eu mesmo já me aproximei perigosamente do cibervício. Houve uma fase em que sentava para escrever e passava horas trocando e-mails, no Twitter, MSN, Facebook. Reconheço um saldo positivo: são inúmeras as pessoas com quem estabeleci uma sólida amizade. Com um toque gastronômico, admito. Uma amiga mineira, outra paraense, senhoras do interior de São Paulo, todas habituaram-se a me enviar vidros de compota, bombons de cupuaçu e uma infinidade de delícias. Como conheceria damas tão dedicadas a me engordar sem o Twitter? Na época, porém, minha produção literária diminuiu fragorosamente. Ainda adoro as redes sociais, mas me contenho. Boa parte dos autores sofre a tendência. A palavra escrita é nosso meio de expressão. Nas redes sociais, eu me torno muito mais sedutor que ao vivo, com minha estatura mediana, barriga proeminente e óculos de míope. Bate-papos na web, com todas as fantasias decorrentes, são uma isca para os artistas. Tolstói não teria escrito Guerra e paz nem Proust Em busca do tempo perdido se tivessem computador. Prefiro não citar nomes, mas alguns escritores famosos que conheço leem e produzem menos do que antes porque ficam se divertindo na web.

Para algumas pessoas, o uso contínuo da internet tem impacto no trabalho, nas relações de amizade e também nas afetivas. A pesquisadora americana Kimberly Young fundou o Center for Online Addiction, em Bradford, na Pensilvânia, para tratar ciberviciados. Como nos EUA existem grupos para tudo, lá funcionam os de apoio para ciberviúvas – esposas de viciados em relações amorosas, pornografia ou apostas pela internet. A compulsão já é tratada em vários outros centros especializados dos EUA. O fenômeno é mundial. O hospital londrino Capio Nightingale também oferece sessões de terapia a jovens viciados no computador. Na Coreia do Sul, o tratamento procura estimular as relações face a face e trabalhos manuais, para criar outros interesses entre os ciberviciados. Desde 2008 o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo iniciou o tratamento de jovens com dependência tecnológica, incluindo em videogames.

Os casos mais sérios de que tive conhecimento acontecem no Japão. Existem pessoas que moram em lan houses! Explico: em Tóquio, há lan houses com espaços privativos. A pessoa chega de mochila. Pendura-se no computador noite e dia. Dorme algumas horas num colchonete e volta a viver no fantástico mundo da web. Quando sai, leva tudo o que tem na mochila. Alimenta-se, arruma dinheiro de algum jeito e volta a se instalar na lan house de sua preferência.

Muitos pais se negam a acreditar nos perigos da internet porque, afinal, o adolescente está sob seus olhos, dando uma falsa impressão de segurança. Foi o caso de uma amiga carioca. Sua filha passava horas on-line. A mãe orgulhava-se do empenho da garota. “Talvez ela estude informática!”, dizia. Há dois meses a menina, menor de idade, fugiu de casa. Desesperada, a mãe descobriu que ela estava num site de relacionamento com o sugestivo apelido de Safadinha.

São raros os pais que detectam quando o adolescente começa a usar drogas tradicionais. O cibervício também é enganador. Pais tendem a acreditar que mexer com computador é sinônimo de inteligência. Preferem o adolescente em casa que na balada. É um erro. No mínimo, os ciberviciados afastam-se do convívio social importante para sua formação. Há quem diga que o viver on-line é tão perigoso quanto consumir cocaína ou qualquer outra droga. Talvez seja exagero. Mas o cibervício pode afetar perigosamente a vida do dependente e destruir sua qualidade de vida.


Nota da blogueira: O texto acima veio bem a calhar, já que, bem recentemente, fiquei sem internet por quase 15 dias, e senti um misto de ansiedade e alívio que é até difícil de explicar, pois, se por um lado, fiquei angustiada por não saber o que estava se passando no 'mundo virtual', por outro, me senti aliviada por "ter tempo" de colocar minhas leituras em dia.

Fazia algum tempo que não conseguia me dedicar tanto à leitura como nesses 15 dias que fiquei offline, o que me fez observar o quanto realmente essa “mania” de ficar “conectado” atrapalha o nosso desempenho em coisas de maior importância.

Mas o fato é que esse é um assunto difícil de ser abordado; pois alguns podem achar que na realidade essa minha “falta de tempo” seja apenas uma consequência da minha incapacidade de estabelecer prioridades. E talvez isso não deixe de ser, também, uma verdade! Mas não é a única verdade. Afinal, todos sabem como a internet é viciosa e é preciso muito autocontrole para não sucumbir às tentações do mundo virtual!!

Há algum anos, tenho tentado estabelecer horários fixos para acesso à internet e também para me desconectar, mas a experiência recente me mostrou que não tem sido suficiente e que, às vezes, faz-se necessário algo mais radical mesmo, para que possamos realmente empregar nosso tempo e dedicação a coisas mais importantes, que, no meu caso, é a leitura e a produção literária, que, lamentavelmente, diminuiu vertiginosamente nos últimos meses.

Por isso tudo, não se assuste se, de tempos em tempos, eu “sumir” do mundo virtual.

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Quando a última árvore cair, derrubada; quando o último rio for envenenado; quando o último peixe for pescado, só então nos daremos conta de que dinheiro é coisa que não se come".

(Índios Amazônicos)

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