28/11/2013

8 Motivos para você comprar e ler livros nacionais

Por Ivan Bittencourt


Vamos lá, quantos livros existem na sua estante hoje? Quantos destes são de livros nacionais? 10% ou 20% talvez? Agora retire os clássicos. Quantos sobram? E por fim, destes que sobraram, quantos você efetivamente comprou?

A realidade da literatura brasileira contemporânea é triste. E o pior de tudo é que ela é cíclica: as editoras não investem em autores nacionais (muitas das grandes trabalham exclusivamente com livros estrangeiros), as livrarias mantem as obras brasucas em cantinhos esquecidos e os leitores, simplesmente não se interessam por comprar e ler livros nacionais.


Frase mais lida quando o assunto é literatura nacional:

"É, confesso que não tenho lido muita literatura nacional ultimamente, mas reconheço que é importante!"


Bem, editoras e livrarias são, antes de tudo, empresas e, obviamente, buscam o lucro. Oferecem onde há demanda. Porém, se eles não investem nos autores nacionais, os leitores não conseguem se interessar e gerar demanda suficiente para que este seja um negócio lucrativo. Os livros que se sobressaem em geral são os que começaram pela internet com um marketing direto autor-consumidor.

Resultado: Livrarias não vendem porque as pessoas não compram e leitores não compram por que as livrarias não vendem!


Só existe uma única forma de causar uma mudança no quadro da literatura nacional: algum dos três grupos precisa começar a 'apostar' e investir seu tempo e dinheiro em uma mudança no ciclo. Seria lindo se de repente todas as editoras começassem a produzir livros nacionais e que as livrarias começasse a ofertá-las aos montes, porém, sabemos que isso não vai acontecer tão cedo e tão espontaneamente.
Esperar um incentivo realmente válido do governo é o mesmo que esperar o papai noel entrar pela janela (porque nossas chaminés só servem pra churrasco mesmo).


Qual a solução que está nas nossas mãos então? Começar a consumir livros nacionais.


Imagine se as livrarias veem os livros nacionais se esgotarem das prateleiras e pessoas pedindo por mais. Livrarias vão cobrar das editoras e estas terão que fazer tiragens maiores para suprir a demanda. Tiragens maiores barateiam o preço e tornam o livro mais acessível.
É possível? Claro, mas é um movimento que precisa começar por cada um de nós! 
Por isso preparei este artigo com 8 motivos para você começar a comprar e ler livros nacionais.


1. Português Fluente

Apesar de a maioria dos livros serem traduzidos brilhantemente, com uma linguagem impecável, nada supera a expressão do nativo. Por que?
A beleza de um autor está em brincar com as palavras e conseguir, através delas, traduzir algo que está em sua mente complexa. Cada língua apresenta uma série interminável de elementos diferentes, truques e possibilidades, que te permitem dizer uma mesma coisa de infinitas maneiras. Ou não dizer, e ainda assim conseguir fazer-se entendido. A tradução, por mais brilhante que seja, sempre irá empobrecer um pouquinho a obra.
Para ficar mais claro, basta você comparar um filme estrangeiro dublado e um filme nacional. Por mais brilhante que seja a dublagem, o nacional sempre consegue passar algo mais.
Ler livros nacionais é essencial para quem almeja ser escritor, mas principalmente para aqueles que querem de fato tornarem-se experts em seu próprio idioma (o que deveria englobar todo mundo, não é verdade?).


2. Livros mais baratos

O preço do livro está diretamente relacionado a duas coisas: volume da produção, impostos e a lei de oferta e demanda.
Imaginem o último livro de uma saga que arrastou quase o mundo todo consigo? Obviamente ele será mais caro, mesmo sendo produzido em uma grande escala.
Este não é o caso de nenhum livro nacional. Mesmo os nossos livros de maior sucesso, raramente passam da casa do milhão, ou seja, em termos de demanda o óbvio, economicamente falando, era ter livros o mais barato possível, para estimular a venda.
Os impostos (por incrível que pareça) também não contribuem negativamente para o preço dos livros. O processo produtivo de livros é livre de impostos em quase todo o processo de produção.
Abaixo o trechinho da nossa constituição federal que fala sobre isso:


DAS LIMITAÇÕES DO PODER DE TRIBUTAR

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
VI - instituir impostos sobre:
d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão.


Ou seja, o fator realmente determinante para o preço dos livros é o volume da tiragem. Cada livro necessita de um determinada quantidade fixa de serviços de edição. Uma grande tiragem dilui este valor em milhões de exemplares, tornando-o mínimo.
A maior parte dos livros nacionais são publicados em tiragens mínimas e só o são por que há pouquíssima 'esperança' de que algum autor brasileiro realmente faça sucesso e a demanda é baixíssima.


3. Mais investimento, mais autores, mais leitores

Quanto mais você compra livro nacional, mais as editoras vão perceber que existe sim demanda para ler livros nacionais. Mais as pessoas vão perceber que os nossos autores em nada perdem para os estrangeiros. Logo, investir em autores nacionais será uma opção tão lucrativa quanto comprar os direitos de uma obra gringa.
Com as editoras e livrarias investindo mais em literatura nacional, a carreira de autor se tornará mais atrativa e logo vão existir ainda mais pessoas produzindo ainda mais livros. Mais livros geram mais opções e isso movimenta ainda mais o mercado editorial nacional.
E por fim, tendo mais autores nacionais o acesso a eles se tornaria bem mais fácil. Mais escritores poderão visitar escolas e mais crianças vão se interessar por ler.
(quem já teve contato com o autor de um livro durante a época escola, sabe bem do que eu estou falando).


4. Cultura nacional

Você conhece o Brasil? Seus 26 estados, sua capital, seus rios, suas praias, seus trejeitos, suas expressões culturais, suas expressões, seu jeito de ser, suas cidades pequenas, sua culinária... Provavelmente você conhece só uma pequena parte disso tudo.
O Brasil é um país que tem uma riqueza muito grande e é bacana ver, por exemplo, histórias malucas acontecendo no nosso território.
Vampiros invadindo a Amazônia, seres extraterrestres aterrizando em pleno Pelourinho ou um detetive que precisa driblar o trânsito de São Paulo pois tem apenas meia hora para salvar uma vítima.
Se ler é viajar, talvez seja a hora de conhecermos um pouco mais o nosso próprio país.


5. Exportação de cultura

Em geral, os livros são traduzidos para outras línguas somente após atingirem algum relativo sucesso no seu país de origem.
Se você passa a comprar e ler mais livros nacionais, estes livros passam a ser considerados livros de "relativo sucesso" e a chance de estrangeiros comprarem os direitos de tradução são bem maiores. (vide Spohr, Dracoon e outros).
Imagine vários livros de autores brasileiros nas livrarias do mundo, mostrando para eles um pouco mais do que, verdadeiramente, é o país (sem aqueles clichês de praia, futebol e etc), do mesmo jeito que descobrimos mais sobre o Afeganistão com Khaled Hosseini, sobre a Turquia com Orhan Pamuk e sobre a Espanha com Zafón.
Além, é claro, de trazer investimentos estrangeiros para cá, gerando um ciclo virtuoso: editoras investindo em autores nacionais já pensando em comercializar os direitos de publicação mundo afora.


6. Um oceano azul de possibilidades

A literatura nacional é pouquíssimo explorada pela maioria das pessoas. Há muita coisa nova, muita coisa legal, muita coisa diferente escrita por brasileiros e que estão lá, ávidas para serem descobertas.
E começar a entrar neste novo mundo e ver tudo o que ele pode oferecer só depende de uma coisa: ir à uma livraria (especialmente as lojas online da Submarino, Saraiva, Cultura e Fnac), entrar na seção de nacionais e procurar algum que te atraia. Tenho certeza que encontrará.




Então eu tenho que parar de ler livros estrangeiros e só ler nacionais?
Claro que não! Eu mesmo adoro Zafon, Rowling, Camus, Brooks, Zusak e outros fantásticos escritores estrangeiros e os leio com frequência.

Mas que tal balancear um pouco a sua estante? Que tal 50% dela ser composta por livros nacionais, majoritariamente contemporâneos? É um número razoável. Basta se lembrar que a cada livro gringo comprado, você precisa comprar um livro nacional também.

Se não quiser arriscar, basta dar uma passeada pelos blogs que você encontrar resenhas de livros nacionais e pode ir acrescentando na sua lista de desejos.

Gandhi dizia, 'seja a mudança que você quer ver no mundo'.

Que tal VOCÊ ser a mudança que queremos ver no Brasil? Que tal um país de mais leitores, mais autores e com livros mais baratos?


Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. ;) John Lennon


Nota: Texto publicado originalmente no blog Novas Memórias e gentilmente autorizado pelo autor para publicação aqui.




Ivan Bittencourt  Ivan Bittencourt tem 22 anos, é paraense mas mora em Goiânia a 15 anos. Autor do livro Memórias de um Adolescente e da série de contos Pecados e Tragédias. Cursa o último ano de administração na Universidade Federal de Goiás.


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Um comentário:

  1. Uma coisa que eu ao quando estou lendo um livro nacional, é ir reconhecendo os locais narrados na trama. Quando calha do enredo envolver uma cidade que eu conheça, me sinto em casa e mais dentro do enredo. Não sei quantos nacionais eu tenho, mas são bem menos do que eu gostaria, e por incrível que pareça não tenho tantos clássicos, tenho mais contemporâneos e muitos infantis.
    Bjs, Rose.

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Quando a última árvore cair, derrubada; quando o último rio for envenenado; quando o último peixe for pescado, só então nos daremos conta de que dinheiro é coisa que não se come".

(Índios Amazônicos)

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