04/07/2015

A escrita subversiva e a discrepância entre a literatura e a diversidade brasileira

Por Janethe Fontes


Embora o ato de escrever, por si só, já tenha sido considerado subversivo, sobretudo quando produzido por determinados gêneros (mulheres e homossexuais) ou grupos sociais (negros, índios, etc), o fato é que a escrita também já foi bastante produzida – e em alguns casos ainda continua sendo – para ‘manter padrões’ e/ou reforçar estereótipos, mesmo que de forma inconsciente.

Como exemplos disso, eu poderia citar as revistas femininas e artigos produzidos sobre comportamento feminino no início do século XX, que hoje nos parecem ‘piadas’ devido às aberrações tidas como regras de etiqueta/comportamento! Também poderia fazer referência a alguns livros que reproduziram preconceitos horrendos e que até hoje são lidos sem uma crítica ideal dos valores apresentados. Mas vamos nos focar na literatura contemporânea brasileira.

Afinal, quantos livros nacionais você já leu onde, ao menos, um dos protagonistas é moreno, negro, gordo (ou gordinho), índio ou homossexual? Poucos, né?

Mas num país onde seu povo é, em grande parte, mestiço, não parece estranho que apenas 7,9% dos personagens sejam negros e menos de 0,5% sejam índios, conforme nos aponta Regina Dalcastagnè em seu estudo sobre a “Literatura brasileira contemporânea”?

O estudo ainda aponta que dos 258 livros estudados, 73,5% dos personagens negros são pobres e 20,4% são bandidos.

Quanto ao perfil dos escritores brasileiros: 93,9% são brancos. 72,7% são homens e 78,8% possuem ensino superior.

E porque essa discrepância entre a literatura e a diversidade brasileira? Simples! Porque a literatura é, na verdade, apenas um reflexo da sociedade que, apesar de suas verdadeiras origens, ainda contém muito do pensamento eurocêntrico. Além disso, como a venda de livros estrangeiros no Brasil ainda é muito grande (bem maior do que o que é produzido aqui, em terras tupiniquins), muitos autores acabam ‘por copiar’/reproduzir personagens com características europeias. Afinal, esse é um padrão de vida e beleza que nos foi imposto há bastante tempo e não é fácil romper.

Ou seja, faz-se necessário ‘abrasileirar’ a literatura brasileira.

A literatura, como tem sido produzida por aqui, apenas ‘cultua’ valores e ideias de outros povos, que, em muitos casos, são bem diferentes dos nossos.


A crítica que faço não é para que meus pares se sintam ofendidos, injustiçados ou afrontados. Ao contrário disso! Até porque temos um mercado literário ainda muito complexo, onde os literatos penam muito para ter seu trabalho publicado e, sobretudo, valorizado.

Além disso, a concorrência que enfrentamos com ‘o que vem de fora’ beira o desleal, pois enquanto obras estrangeiras, advindas da Europa e USA, são trazidas para cá ‘com toda pompa e circunstância’ e expostas em todas as vitrines das grandes livrarias, a literatura brasileira fica, muitas vezes, relegada aos cantos mais escondidos dessas mesmas livrarias.

Vejam que o mesmo tratamento pomposo também não é dado à literatura africana, asiática ou latino-americana. Como exemplo, cito a escritora, ativista LGBT muçulmana, jornalista e apresentadora de televisão, naturalizada canadense, Irshad Manji (Uganda, 1968), que é uma das signatárias do Manifesto: Juntos contra o novo totalitarismo, cujas obras são pouco conhecidas no Brasil. Haveria outros inúmeros exemplos que não caberia aqui se fosse citá-los.

Enfim, o problema é bastante complexo, pois envolve um público leitor que ainda não aprendeu a valorizar o que é produzido por seus conterrâneos (apesar disso estar mudando lentamente). Mas também não estou acusando os leitores e tampouco as editoras e livrarias, acredito apenas que ‘romper com as regras do mercado’ e produzir uma literatura mais heterogênea, que fale de ‘nós mesmos’, de nosso hábitos e costumes, talvez (e apenas talvez, já que não tenho certeza de nada), seja um diferencial que ainda não aprendemos a explorar em nossa literatura. Quem sabe quando isso acontecer, a literatura brasileira consiga ‘aparecer’ e assim atrair não só as editoras mas também um público leitor que se identifique verdadeiramente com as personagens?


Importante: Enquanto produzia este artigo, coincidentemente, um amigo meu publicou (em seu facebook) um artigo da Revista Forum com a notícia de que o Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, recusou a criação da Cátedra Michel Foucault no início deste ano.

Segundo Marcelo Hailer, que produziu o artigo para a revista, a “censura e intervenção contra a criação da Cátedra foi deliberada pelo Conselho Superior, órgão máximo constituído pela reitora Ana Cintra, bispos da Arquidiocese de São Paulo e o cardeal dom Odilo Scherer.”

De acordo com relatos, a censura se deu por que os pensamentos do filósofo “não coadunam com os valores da igreja”. O que espanta, ainda de acordo com Marcelo Hailer, é que o Conselho Superior tenha levado mais de 40 anos pra descobrir isso, visto que a PUC-SP é internacionalmente conhecida pelos vários estudos e grupos de pesquisa ligados à sua obra. Portanto, a censura do Conselho se dá por dois motivos: 1) Moral: Michel Foucault era homossexual, crítico da igreja e foi uma das primeiras pessoas públicas a morrer de aids na França; 2) Político: apesar da PUC ser uma referência em estudos foucaultianos, a universidade não tinha um ligamento oficial com o filósofo, a partir do momento em que a Cátedra fosse criada, a instituição passaria a ser visitada por pesquisadores do Brasil e da América Latina por conta dos áudios de seus cursos.


O que a gente abstrai desse tipo de notícia? Bem, ao que parece, a subversão pode custar muito caro ao artista que se atreve a lutar contra os padrões, contra o pensamento linear. No caso de Michel Foucault, sua opção sexual e política ainda incomodam muita gente...




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Quando a última árvore cair, derrubada; quando o último rio for envenenado; quando o último peixe for pescado, só então nos daremos conta de que dinheiro é coisa que não se come".

(Índios Amazônicos)

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